segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Ser

Ela tentava. Jura que tentava. Mas como era possível começar a escrever uma obra-prima se o texto mal existia e já tinha a responsabilidade de ser uma obra-prima? Aí, o texto acovardava e não saía.

Houve muitas vezes na vida em que ela também foi covarde e não saiu. Seu problema de covardia foi parcialmente resolvido com visitas ao psicólogo. Achou, então, que aquela poderia ser a solução. Levou o texto ao psicólogo.

- Bom dia.

.

- Então, você não está tendo coragem para ser o que ela quer que você seja, certo?

...

- Ele não sai, doutor. Fica mudo, mudo, é frustr--

- Com licença, mas seria interessante que o texto falasse.

- Ah. Perdão.

- Pode prosseguir?

E prosseguir o que, se eu nunca comecei nada?

Foi a primeira vez que o texto falou. Um texto quando não fala nem texto é. É rascunho de texto, é hipótese. Mas, a partir do momento que ele abriu a boca, ele se fez texto. E que responsabilidade é ser texto! Um passo mais e já vão lhe cobrar que seja obra-prima! Por isso, ele calou de novo.

Acabou a sessão de análise.